quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Como o roubo de cadáveres ajudou a revolucionar a medicina

Quando vemos uma equipe de hospital realizar um procedimento cirúrgico com maestria, não imaginamos que por trás da bela medicina há episódios históricos não muito belos. Entre os séculos 17 e 19, por exemplo, o roubo de cadáveres foi uma prática muito comum na Europa e, embora eticamente questionável, possibilitou enormes avanços na área da saúde.
Pela primeira vez, serão publicadas evidências arqueológicas do que aconteceu com esses corpos, da autópsia ao “re-enterro”. Para escrever o livro “Anatomical Dissection in Enlightenment England and Beyond: autopsy, pathology and display” (“Dissecação Anatômica no Iluminismo da Inglaterra e Além: autópsia, patologia e exibição”), lançado recentemente, os pesquisadores exumaram corpos enterrados naquela época. Os resultados não foram dos mais bonitos.

Quebra-cabeça humano

“O fato de que diferentes corpos foram dissecados por diferentes estudantes de medicina em momentos diferentes significa que as mesmas partes de um mesmo corpo nem sempre estavam disponíveis para serem recombinadas”, conta Piers Mitchell, do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Cambridge (Inglaterra). “Assim, podemos ter um caixão cheio de braços ou pernas, ou às vezes a parte de cima do corpo estaria presente, e a de baixo, não”.

Serra cirúrgica do século 19
Embora a prática certamente tenha chocado parentes e amigos das pessoas que tiveram seus corpos roubados e dissecados, não há como negar os avanços feitos na época por causa desses “desvios éticos”. “Graças às descobertas dos primeiros anatomistas, nós chegamos ao conhecimento moderno sobre como órgãos funcionam e como é a anatomia normal”, aponta Mitchell.
A prática era tão comum na época que era normal vigiar o corpo durante o enterro (e depois dele) para evitar furtos. Além disso, algumas famílias enterravam seus mortos em caixões de ferro ou em túmulos protegidos por grades (ou em ambos, por garantia).
Curiosamente, muitos “ladrões de corpos” tinham o cuidado de deixar os pertences de valor do morto, para não se encrencar ainda mais com a lei.

Fornecedores de corpos

Na primeira metade do século 19, uma dupla de irlandeses chocou a população da Inglaterra: William Burke e William Hare mataram e venderam pelo menos 16 vítimas para o anatomista Robert Knox, da Faculdade de Medicina de Edinburgo (Escócia). Em 28 de janeiro de 1828, Burke foi executado, e Hare só conseguiu escapar da forca porque aceitou testemunhar contra o colega. Ironicamente, o cadáver de Burke foi dissecado, e seu esqueleto permanece guardado até hoje na Universidade de Edinburgo.
A necessidade de corpos para estudo (e o fato de pessoas como Burke e Hare chegarem a extremos para se aproveitar desse “mercado”) levou diversos países a permitir que cadáveres de pacientes de asilos e hospitais que não fossem recolhidos por familiares pudessem ser legalmente usados por médicos e estudantes. Em 1832, foi assinado pelo Reino Unido o Ato da Anatomia, que permitia a dissecação de corpos doados. Antes disso, a única alternativa legal para médicos e estudantes era pegar corpos de condenados à morte por tribunais.
[Daily Mail UK]