quinta-feira, 18 de abril de 2013

Agente Funerário: Um Olhar Histórico Sobre o Surgimento Dessa Profissão



Estava o corpo morto nu ou vestido para viagem?
O que te fez declarar morto o corpo morto?
Declaraste morto o corpo morto?
Conhecias bem o corpo morto?
Como soubeste que o corpo morto estava morto?
(Haroldo Pinter)


Propusemo-nos a fazer, nos próximos dois artigos, uma discussão e reflexão sobre a origem de duas importantes funções: a dos agentes funerários e dos tanatopraxistas.

Não fomos educados para conviver com a morte. Perder parece ser uma palavra que foi sendo tirada do nosso dicionário, ninguém quer perder alguma coisa, por mais simples que ela seja, muito menos perder pessoas a quem ama. Essa vivência é arrebatadora, sem qualquer lógica que a razão possa explicar.

A morte tem sido tema de afastamento e repulsa de toda a construção humana de conhecimento. É a única presença permanente na vida e, ao mesmo tempo, é pela sua concretização que a vida desaparece.

A forma como os homens concebem a morte e tudo que se aproxima dela tem sofrido transformações ao longo dos tempos. No passado a morte acontecia em casa junto com as famílias, o corpo era cuidado pelos parentes e não causava aversão e medo. Os rituais eram longos, com muitas pompas fúnebres e de acordo com a cultura do falecido. O local do sepultamento era nas igrejas ou próximo da casa.

Os rituais sempre foram acontecimentos importantes que simbolizam as fases e passagens distintas da vida humana. Fato que faz com que as celebrações - nascimento, formatura, casamento e morte - sejam ocasiões que simbolizam as transformações e mudanças de um estado para outro. Assim, o rito de passagem da morte é materializado por meio dos funerais e dos velórios, nos quais o corpo é o representante maior da passagem.

Com o passar dos tempos o corpo começa a despertar medo e receio. O que até então era enterrado, muitas vezes, só coberto com lençóis, passa a ser colocado no caixão. A morte vai se afastando do seio familiar e se alojando nos hospitais. Passa a ser considerada, aos poucos, uma afronta e, acaba sendo expulsa e ignorada da vida humana.

Os velórios são retirados das casas e vão para os cemitérios que também vão se afastando cada vez mais da cidade e se transformando no que chamamos de cemitérios parques.

As cerimônias ficam cada vez mais discretas e há uma supressão do luto com pouco espaço para os rituais, para a dor e pranto.
As famílias, que antes cuidavam do corpo, agora parecem evitar esta tarefa, como forma de manter o distanciamento da morte. Um novo personagem começa a ser solicitado: aquele que vai cuidar da arrumação do corpo que será velado, do funeral e dos primeiros encaminhamentos do velório.

Através de histórias reais ou mitológicas podemos sempre encontrar uma menção de preparação do corpo. A ritualização do corpo parece trazer várias questões manifestas e latentes, reais e imaginárias que nos dizem nas entrelinhas sobre importantes olhares sobre a morte e os mortos.

Em nossa cultura há uma forte preocupação com a decomposição do corpo e em torno dessa questão foram se concretizando práticas cada vez mais sofisticadas de mumificação, embalsamamento, higienização e preparação do corpo para o velório. Os agentes funerários e os tanatopraxistas surgiram dentro desse cenário e tiveram importante papel junto com as famílias em luto.

Sabemos que a morte de um familiar é um episódio doloroso e que deixa todos fragilizados e vulneráveis a qualquer solicitação externa. Assim com a crescente demanda, houve a ampliação e participação dos agentes funerários, que agora executam tarefas que, entes pertenciam à família, como: organização e realização dos funerais, providenciando os preparativos (limpeza, vestimenta do cadáver, e, as vezes, a tanatopraxia), transporte e demais serviços para poupar a família desse trabalho.

Desta forma, vimos que a crença da morte como inimiga e, consequentemente, do morto como o representante da impotência e da finitude do homem, foram responsáveis por uma série de mudanças no que se referem aos rituais, ao sepultamento e mais recentemente a preparação do corpo.

Acreditamos que o conhecimento deste trajeto até aqui traçado, pode nos ajudar a compreender não só a inserção desse profissional, bem como a importância que ele passa a ter no acompanhamento e auxílio à família enlutada. Com a sofisticação de todo esse aparato temos a implantação oficial no Brasil - na década de noventa - da tanatopraxia.

No próximo artigo trataremos com mais detalhes das questões ligadas a tanatopraxia.


Fonte: Ana Lúcia Naletto e Lélia de Cássia Faleiros são psicólogas do Centro Maiêutica e desenvolvem trabalhos na área de apoio ao luto em cemitérios, crematórios e funerárias. www.centromaieutica.com.br